terça-feira, 19 de maio de 2009

Sobre a Liberdade

A aparência denuncia sua idade, mas por dentro ele é como qualquer jovem. Sedento por adrenalina. Ter uma vida calma como todo senhor de sessenta, setenta anos – não, isso não é para ele! Dirigir carros comuns? Passado; a vida sobre duas rodas é muito mais excitante.
Talvez seja, sim, por fazê-lo sentir como se fosse um pássaro, ainda que não tenha asas – livre. Ele tira o capacete e deixa a brisa tocar-lhe o rosto, brincando com seus longos cabelos grisalhos. Veste novamente e posiciona-se. Verde. E então não há mais ninguém diante de mim.
Ele voou.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Encontro

Acontece, geralmente, ao fim do dia, podendo ser mais cedo ou mais tarde, não importa. Às vezes veste vermelho, outras vezes cinza, amarelo, azul - é como se seu guarda-roupa guardasse, na verdade, todo o espectro de cores. Ele sempre está lá, não importa se faz frio ou calor, se há chuva ou sol. É incrível o modo como nos entendemos, sem trocar uma palavra.
Difícil vê-lo alterado - é sempre tão calmo! Passando fins de tarde e noites com ele sinto-me segura, tranquila. Mesmo quando explode de raiva para depois chorar, por muito tempo, por pouco tempo, por dias e dias, sua companhia é agradável. Mas tudo fica ainda melhor quando ela aparece, tão bela, brilhante e branca. E deixá-los sozinhos não é grande sacrifício quando estou certa de que terei outras oportunidades para acompanhá-lo.
Todos os dias tenho um encontro com o céu.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Como uma criança

Com os cabelos ainda molhados e do topo da colina, ela observava. No início, conseguira identificar apenas vultos, mas sua visão já se reestabelecera e ela podia ver tudo o que acontecia: crianças. Corriam, pulavam, brincavam, cantavam, todas seguindo o mesmo compasso. Sorriu decididamente, embora ainda se questionasse sobre o que seria o melhor a fazer. Por fim, levantou-se, ainda sorrindo; correu para chegar a tempo de garantir sua participação naquela rodada de esconde-esconde.
A brisa soprou, suave. Desde que adentrara o box do banheiro, estava revivendo sua infância, que agora cheirava a colônia e morango. A cor que ardia em seus olhos.

domingo, 22 de março de 2009

A bailarina trilha seu caminho pela corda-bamba com um pequeno guarda-chuva, que a ajuda a manter o equilíbrio. Alguém que acompanhava o espetáculo, horas depois, na mesma noite, passou a ser chamado de bêbado. E sua embriaguez não se deu graças a nenhuma bebida. O bêbado deixou-se embebedar pela graciosidade da cena à qual assistia, pela beleza da protagonista; embebedou-se disso, talvez, para esquecer os riscos que a equilibrista corria, lá no alto, sozinha com o guarda-chuva. E o bêbado foi, enfim, tomado pela dúvida: se a vida da pequenina não dependesse da corda, que guiava seus passos, e do guarda-chuva, que lhe dava equilíbrio, poderia ela trilhar, com leveza e precisão, o caminho que levaria a seus braços?

sábado, 21 de março de 2009

Como é que se diz?

A cena: uma cesta aguardava por aqueles produtos próximos à sua data de validade. Estaria vazia se uma rosa, e ela sozinha, não descansasse sobre sua superfície vazada.

Um dia, já valeu muito mais.