quarta-feira, 3 de junho de 2009

Andando em vão pela sala, podia ouvir o som das patas do cachorro, que corria no andar de cima, e de dois saltos ambulantes. Mesmo que o apartamento não seja grande, consigo me perder com facilidade, e as coisas úteis sempre estão escondidas quando mais preciso delas. Corro de volta para o quarto em busca de um caderno; abro uma das gavetas e encontro livros (ah, a falta que faz uma estante!) onde ele deveria estar. E a situação só fica mais tensa, uma vez que os livros, com seu doce perfume, me distraem. Demoro algum tempo para retomar meu objetivo inicial: encontrar meus curativos, feitos com papel e tinta – muita tinta.
Não são raras as vezes que me encontro com vontade de escrever, mas o choque maior costuma acontecer à noite. Então eu sangro - às vezes o bastante pra molhar o travesseiro. Acredito sofrer de verbofilia; afinal, nem papel nem tinta curaram por completo meu derramamento de palavras, embora sirvam como curativo, controlando-o e auxiliando no difícil processo de cicatrização. O problema fica ainda pior quando não os encontro e termino por sofrer um derrame, palavras a inundar minha mente, encharcando-a por completo. Nesses casos, só posso recorrer a tranqüilizantes naturais, acelerando um relógio biológico já fora de controle. E muitas vezes, torço para que palavras, idéias, sua cor e cheiro de ferro venham a invadir, também, meus sonhos.

domingo, 24 de maio de 2009

Ignorância

Conheço palavras, mas elas parecem não surtir efeito. Conheço o sono, mas ele tem me evitado. A certeza já foi minha amiga - hoje quase não nos falamos. Acho que um bichinho me mordeu: o bichinho da dúvida. E eu tenho andado de mãos dadas com a paciência.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sobre a Liberdade

A aparência denuncia sua idade, mas por dentro ele é como qualquer jovem. Sedento por adrenalina. Ter uma vida calma como todo senhor de sessenta, setenta anos – não, isso não é para ele! Dirigir carros comuns? Passado; a vida sobre duas rodas é muito mais excitante.
Talvez seja, sim, por fazê-lo sentir como se fosse um pássaro, ainda que não tenha asas – livre. Ele tira o capacete e deixa a brisa tocar-lhe o rosto, brincando com seus longos cabelos grisalhos. Veste novamente e posiciona-se. Verde. E então não há mais ninguém diante de mim.
Ele voou.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Encontro

Acontece, geralmente, ao fim do dia, podendo ser mais cedo ou mais tarde, não importa. Às vezes veste vermelho, outras vezes cinza, amarelo, azul - é como se seu guarda-roupa guardasse, na verdade, todo o espectro de cores. Ele sempre está lá, não importa se faz frio ou calor, se há chuva ou sol. É incrível o modo como nos entendemos, sem trocar uma palavra.
Difícil vê-lo alterado - é sempre tão calmo! Passando fins de tarde e noites com ele sinto-me segura, tranquila. Mesmo quando explode de raiva para depois chorar, por muito tempo, por pouco tempo, por dias e dias, sua companhia é agradável. Mas tudo fica ainda melhor quando ela aparece, tão bela, brilhante e branca. E deixá-los sozinhos não é grande sacrifício quando estou certa de que terei outras oportunidades para acompanhá-lo.
Todos os dias tenho um encontro com o céu.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Como uma criança

Com os cabelos ainda molhados e do topo da colina, ela observava. No início, conseguira identificar apenas vultos, mas sua visão já se reestabelecera e ela podia ver tudo o que acontecia: crianças. Corriam, pulavam, brincavam, cantavam, todas seguindo o mesmo compasso. Sorriu decididamente, embora ainda se questionasse sobre o que seria o melhor a fazer. Por fim, levantou-se, ainda sorrindo; correu para chegar a tempo de garantir sua participação naquela rodada de esconde-esconde.
A brisa soprou, suave. Desde que adentrara o box do banheiro, estava revivendo sua infância, que agora cheirava a colônia e morango. A cor que ardia em seus olhos.