terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Ela culparia as cebolas que cortava, mas sabia que precisava daquelas lágrimas - até mesmo esperara por elas. Estava certa de que viriam e chegou a estranhar sua demora.

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"Primeiro, o beijo. Depois, a náusea", palavras que se repetiam em sua mente, constantes, assim como seu mal-estar. Sentia o cheiro repugnante e pegajoso em seus cabelos. O ardor em sua garganta. Via, novamente, o vermelho tingir a rua, seus pés, suas roupas. Voltar contra seu rosto, arranhando-o; pingar de sua boca, escorrendo por seu corpo. Os lábios se retorceram num sorriso desprezível, imundo. Satisfeito por ver os pedaços de mágoa espalhados pelo chão.
"Palavras podem ser indigestas."

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

(Pseudo) Tarde campestre

E eu, entre as roupas penduradas no varal, ria alto de uma das muitas histórias protagonizadas por meu avô.
A noite derramava-se como óleo, trancada, fora do apartamento. E se sonho não fosse sonho?

terça-feira, 27 de outubro de 2009



Nunca concordei com Lennon e McCartney em If I Fell; não acredito que vá concordar um dia, e sempre me pergunto o que seria do amor sem as mãos.
As mãos falam - falam por nós, falam sozinhas, falam conosco. Sabem se expressar, têm senso crítico. Acompanham riso e pranto; quase têm vida própria! Sabem onde começar e quando parar. Temem, tremem, congelam. As que agridem são as mesmas que queimam; as que sangram, acolhem e acariciam.
Tocam, enroscam-se, conduzem, pedem, chamam. E são elas que, por fim, unem dois em uma só carne.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Criar diálogos é, sem dúvida, um dos meus maiores e mais amelísticos prazeres. Alterá-los em situações já existentes ou imaginá-los em outras, pelas quais, provavelmente, não hei de passar.
Tudo se dá, inicialmente, como em uma fotografia; cenas estáticas e sem nenhum som. Daí em diante, escrevo um roteiro, depois de avaliar as características de cada personagem. Visualizo, então, suas ações e palavras trabalhando em conjunto, e passo de roteirista a espectadora, diante da atuação de desconhecidos, amigos - e, às vezes, até de mim mesma, frente a frente com meu alter-ego. Como sempre, posso ser levada às lágrimas ou rir sozinha, assustar-me ou sentir algum conforto ao analisar cada movimento a fundo.
Creio que essa seja uma das melhores formas que encontrei para entender como as coisas podem acontecer: idealizando-as; pensando em cada possibilidade, escrevendo e reescrevendo roteiros. Tendo a certeza de que, se errar, não hei de ferir a mais ninguém senão a mim mesma.

domingo, 26 de julho de 2009

Tem muitos livros aqui, vô. A colônia quer montar uma biblioteca, achei o maior barato. Ordenei os livros de capa vermelha quando chegamos, “clássicos da literatura universal”. Faltavam dois ou três, mas alguém deve ter pegado para ler. O jornal também parecia não ter todos os cadernos, ou eu não tive paciência suficiente para lê-los todos? Talvez. Não é que eu não goste de jornais, mas... O senhor, eu lembro. O senhor gostava, não é? Principalmente das palavras cruzadas. Bem, minha mãe comprou algumas para fazermos juntos. Ela trouxe tirinhas também, e eu, alguns livros. A tia Nan me mandou as tirinhas – ela sabe que gosto. Elas ficam junto das palavras cruzadas, não é?
Eu trouxe o violão. Minha mãe já me cobrou o estudo, e eu sei que o senhor também cobraria. Mas eu estava desanimada, vô, um pouco cansada. De qualquer forma, eu tenho que estudar, e vou fazê-lo assim que estiver melhor – amanhã, quem sabe. Minha mãe não é a única que me cobra: a tia Mar, tia Nan e eu. O senhor me cobrava, vô.
Parece que o tio tem uma dieta especial agora; acho que o senhor o acompanharia. É quase impossível não pensar no senhor quando falamos de limão ou linhaça. Aliás, falamos sobre o senhor hoje, durante a janta; Ou foi almoço? O senhor bem sabe que compramos “besteirinhas” para viajar. Eu lembro que eu não gostava do seu pão, e até agora ninguém conseguiu fazer igual, nem seguindo a receita. Eu gosto do seu pão, vô.
A tia Mar achou o caderninho, deve saber qual. Eu anotei as frases, faz um bem danado ler aquilo - sempre acabo rindo. Quando falamos sobre o senhor hoje foi para lembrar uma delas.
Fomos ver o mar no final da tarde. Eu queria ter saído mais cedo, quando vi que o céu estava bonito, as nuvens amareladas e em tons de rosa, como uma página envelhecida manchada com um pouco de vinho. Ao sair já estava cinza, carregado, mais uma vez. Ainda assim eu quis ir. O mar estava bravo, a água subia bastante. Mesmo desse jeito consegue ser lindo. De manhã andamos um pouco, pegando conchinhas. O senhor andaria junto, não é?
Desculpe por não ter dançado valsa com o senhor naquele casamento, vô. Eu dancei um pouco com a minha mãe hoje, ela pensou que eu estivesse louca. Acho que eu tenho um pouco de mar dentro de mim, sabe. Numa hora, calma e fácil de lidar; noutra, atrevida, rebelde. Às vezes, quando eu penso no senhor, a água acaba rompendo os diques e inundando meu rosto. Mas não é porque eu esteja brava; é por causa das recordações, sempre tão felizes.
Acho que vou mudar meu julgamento, então. O mar não fica bravo ao fim da tarde – fica feliz.