quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Eu quis ser Dora

Eu quis ser Dora, assim como quis ser muitas outras. Quis porque conseguia vê-las em mim, ou talvez o contrário. E quis primeiro Dora porque era a mais fresca, mais recente em minha memória, porque a Bahia me pegou desprevenida e porque a beleza das palavras do militante baiano me conquistou. Considerando todas elas, quis porque existem de uma forma diferente, foram feitas para inspirar as mais tontinhas como eu, talvez, quem sabe.
Faz tempo, percebi que sempre tenho vontade de escrever nas horas erradas: subindo escadas, nadando, no meio da aula de matemática, durante a janta - e isso é um grande problema, porque até aqui minha organização falha e as frases que fariam sentido juntas ficam soltas, perdidas (e quando tento fazer as duas coisas ao mesmo tempo, nenhuma delas sai como deveria). Percebi também que não gosto de falar sobre mim, mas sempre que escrevo acabo virando assunto.
Mas dessa vez não tinha como. É que eu precisava escrever e fiquei tão fascinada pelo livro que preferi falar pouco, desviar a atenção para outras coisas e deixar de ser enjoada e falar sobre a obra. Porque Capitães da Areia é, para mim, o tipo de livro quase sinestésico, assim como muito outros entre os meus favoritos. A cada palavra, devem ser sentidas a pele queimando sob o Sol, as roupas esvoaçando com o vento da corrida, a brisa leve trazendo a maresia.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Digamos que parte do que vem agora dependa do caderno da moça da Lingüística, embora eu já tenha tomado minha decisão.
Não pude conter minha imaginação e me vi entre outros estudantes, num corredor que não existe, em alguma universidade, “a (outra) moça da Lingüística, a entediante moça da Lingüística, gosta de cabelos longos e de um velho que fuma cachimbos e escreve e estuda e pesquisa por amor... e também fala de coisas que não existem”. Eu andava encolhida. O cabelo escorreu pelo pescoço e eu quis segurar com o ombro, só deixei porque era bom.
Mas eu continuo encolhida.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A arte de Helena Morley e algum motivo

Construo castelos com riqueza de detalhes, baseados sempre em memórias e planos absurdos, sem rascunhos ou projetos. Por vezes fico cansada e eles são deixados de lado, meias-estruturas fantasmas que me assombram sempre que desprevenida; refúgios que podem desabar a qualquer momento. Talvez minha maior falha seja não conseguir abandoná-los por completo, sujeitando-me à nostalgia de algo que nunca existiu.

O que guardo em mim é uma vontade preguiçosa: uma arte doente, teimosa, que não sabe se expressar. Desajustada, talvez o resultado de um sem-número de coisas que formam minha consciência e conflitam constantemente.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Na agenda

"Eu ria sozinha daquele entusiasmo todo, que ora me irritava, ora me fascinava. Como um amigo dissera, simpatia demais - e aqui entra minha observação sobre o tentar falar de tudo ou falar sobre qualquer coisa a qualquer um."

Sou meio doente, tenho quase certeza. Minha mania já conhecida de imaginar situações é válida não só para aquilo que não existe, mas para quase todas as pessoas que conheço. Quero ser feliz como elas são; ou melhor, quero saber demonstrar como elas o fazem.
E isso é uma grande mentira, pois meu único desejo é aprender a reconhecer a minha própria felicidade. Sempre fui discreta, não preciso gritar o que sinto para o mundo todo. Prefiro que meus olhos falem por mim.
Enfim, creio que o tempo das historinhas passou. Ultimamente tenho pensado muito mais em minha vida e não na de personagens. Conclui sozinha que vivo num tempo que não chegou, num mundo que não existe, querendo ser quem não sou.
Estou cansada.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Incrível mesmo esse amor.
Foi uma conversa curta, mas agradável – nada além de uma despedida. Que creio ter sido dessa forma porque eu, finalmente, tive coragem suficiente para acenar.
Eis que meu amigo se aproxima e começamos a falar. O jogo que não jogamos, visitas, a câmera, adversidades, algumas adivinhas e risadas.
– Então vai morar sozinho mesmo?
– É o jeito, né... estudando em outra cidade. Ainda não sei se passei, e tem a segunda fase...
A pergunta seguinte ou foi ignorada, ou passou despercebida, e nem eu me lembro mais.
– … mas se ela passar em Comunicação, talvez eu não vá só.
Sorri, encantada. Ele não precisava dizer o nome dela. Eu sabia. E entendo os motivos dele para ter falado dessa forma. Ele sabe que eu sei, e que faço o mesmo, nas mesmas circunstâncias.

Acho que essas pessoas que amam trocam algum tipo de sinal, assim, sem querer.